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Liga dos Combatentes


 

 








 

 

 

 

 








 
 

 

 

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Conferência proferida pelo Coronel Guimarães Henriques, no Museu do Combatente-Forte do Bom Sucesso


A Liga dos Combatentes, prosseguindo com as actividades previstas para assinalar o centenário da Grande Guerra, realizou, no passado dia 23 de Abril, no Museu do Combatente, sito no Forte do Bom Sucesso, mais uma conferência subordinada ao tema “A GRANDE GUERRA – A motivação politica e estratégica nacional para a entrada no conflito em África e França ̶ Consequências”, proferida pelo Coronel Américo Guimarães Henriques. O ilustre conferencista, ao dissertar sobre as razões que estiveram na origem do nosso envolvimento na Grande Guerra, começou por abordar a grave crise politica, social, económica e financeira que Portugal atravessava nessa época.


Para se ter uma ideia da instabilidade reinante na sociedade portuguesa, referiu que em 16 anos de regime republicano houve 48 governos. Os principais partidos políticos, designadamente, o Partido Democrático de Afonso Costa, o Partido Evolucionista de António José de Almeida e o Partido Unionista de Brito Camacho, para além das questões relacionadas com o dia – a - dia da governação do país, não se entendiam quanto à solução a adoptar, sobre a participação de Portugal no conflito.

Em 1912, a Alemanha e a Inglaterra tinham combinado entre si dividir o Império Português. Essa ameaça latente constituía uma preocupação permanente, quer para os chamados africanistas (partidários da defesa do Imperio), quer para os intervencionistas (partidários da nossa participação em França), que curiosamente forçavam a intervenção na Europa com a mesma justificação daqueles, ou seja, de que isso iria também contribuir para a salvaguarda dos interesses portugueses em África. Os argumentos a favor ou contra dividiam os portugueses. Algumas elites defendiam a nossa participação, apresentando os seguintes motivos: obrigação moral, histórica e política de defender o Império; fortalecer a República, perante uma Europa maioritariamente monárquica; afirmação perante uma Espanha, onde Afonso XIII apostava numa neutralidade colaborante com a Alemanha e finalmente sentar-se à mesa com os vencedores. Por outro lado, os chamados africanistas defendiam a nossa presença em Africa, para defender o Império sim, mas opondo-se à participação no conflito europeu com o argumento de que França não nos dizia nada. Na ausência de um consenso nacional que definisse claramente a posição portuguesa perante a Triple Alliançe, foi Norton de Matos, na qualidade de Ministro da Guerra, que no Parlamento, num discurso memorável defendeu a nossa ida para a Guerra dizendo que África era vital para a sobrevivência da Nação, se não participássemos nela os vencedores partiriam o Imperio Português aos bocados, ficando célebre a seguinte frase: “a Pátria defende-se e não se discute”.

Em África onde, desde Outubro de 1914, se travavam renhidos combates com tropas alemãs, quer no Sul de Angola, quer no Norte de Moçambique, portugueses como Teixeira Pinto, herói da Guiné (que morre em combate em Nguanamo), Massano de Amorim, Craveiro Lopes, Ferreira Gil, Humberto de Faria, Afonso Júlio Cerqueira e muitos outros, batiam-se com galhardia para defender a integridade territorial das possessões portuguesas. Enquanto isso, em França, o CEP - comandado por General Tamagnini de Abreu e constituído por duas Divisões, comandadas, a 1.ª, pelo General Simas Machado e a 2.ª, pelo General Gomes da Costa, que tinha começado a chegar, ao teatro de operações europeu, em Fevereiro de 1917, só ficando completo em Outubro desse ano - debate-se com enormes dificuldades, quer de adaptação ao terreno (as características do solo argiloso eram penosas, dificultando a mobilidade dos nossos soldados), quer da deficiente preparação militar adquirida no chamado “Milagre de Tancos”, agravadas, devido à circunstância da nossa chegada à Flandres ter coincidido com a fase mais aguda da Guerra. A instabilidade politica na retaguarda continua, de que é exemplo a revolta militar, em Dezembro de 1917, chefiada por Machado dos Santos, complicando-se, ainda mais, com a decisão do Governo de Sidónio Pais deixar de apoiar as forças expedicionárias em França. Tudo isto contribui para a desmoralização das nossas tropas e a motivação do inimigo, que através dos seus serviços de espionagem se mantém a par das dificuldades com que se confrontam os portugueses.

Prosseguindo a sua intervenção, o Coronel Guimarães Henriques destaca o acto heróico protagonizado, na batalha de Inhamacurra, pelo Alferes de Infantaria Viriato Sertório de Portugal Correia de Lacerda. Ao ver a sua Força dizimada pelos alemães, recusou render-se, sacrificando a própria vida, sendo morto, embrulhado na Bandeira Nacional. Gesto de grande nobreza e patriotismo, que mereceu do comandante do exército inimigo, palavras elogiosas e a prestação de honras militares, como reconhecimento pela bravura demonstrada.

O palestrante terminou a sua brilhante prelecção, lamentando a atitude depreciativa dos ingleses que, no Imperial War Museums, relatam os factos históricos da GG, dando especial relevo às forças da Entente Cordiale e da Triple Alliançe, referindo-se, somente, a Portugal como país neutral, não obstante as 7 000 baixas sofridas em La Lys e os 16 000 e 14 000 mortos que sofreu na Europa e em África, respectivamente.

Homens como Hernâni Cidade, Gomes Teixeira, David Neto, Ribeiro de Carvalho, David Mário, Vale de Andrade, Bento Roma, Abel Hipólito, Bernardo Faria, Serpa Pimentel, Hélder Ribeiro, Raúl Esteves, Homem Ribeiro, Ferreira do Amaral, Aníbal Milhais (que ficou conhecido como soldado Milhões, tendo sido agraciado com a Torre Espada) entre ouros, merecem a nossa estima e admiração pela coragem demonstrada nas várias acções em que participaram, em condições extremamente difíceis.

O Coronel Guimarães Henriques referiu que, apesar das grandezas e misérias porque passaram os nossos compatriotas, agravadas pela crítica social e repulsa política que enfrentaram, fizeram deles homens corajosos que lutaram, de olhos nos olhos, contra o melhor exército do mundo.

Tratou-se de uma verdadeira lição de história, onde os factos e acontecimentos relatados, muitos deles inéditos, para a grande maioria dos portugueses, surpreenderam e emocionaram a numerosa assistência, que ouviu com muito interesse, durante mais de 1 hora, as suas esclarecedoras e apaixonantes palavras.
No final da sua intervenção, foi vivamente saudado por todos.